Querendo ou não, o destino é sempre bom com a gente.


Sai de casa as pressas naquele dia, porque estava atrasada para mais um dia de pré-vestibular. Toda arrumada, tipo garota americana. Coque no topo da cabeça, batom rosa, anéis nos dedos, braço cheio de pulseiras e uma mochila bem pesada com estampa de caveiras. Parecia que eu estava numa maratona de tão rápido que eu andava para poder chegar até o ponto e pegar o primeira ônibus que servisse para ir pro cursinho. Enfim, cheguei. Peguei meu celular, o fone de ouvido e pronto. Me desliguei do mundo e só fiquei ligada na música e nos ônibus que passavam. Nossa, finalmente aquele ônibus chegou. Entrei e como de costume fiz uma pergunta ao motorista. 
— Você passa na Av. Passos ? 
O motorista tomando arrancada para sair do ponto e partir para o seu destino apenas acenou que sim com sua cabeça. 
Passei o cartão para pagar a passagem, rodei a roleta e sentei. Nossa, até que enfim. Fiquei mais tranquila com a sensação de saber que já estava indo para o cursinho e que talvez não chegaria atrasada. Coloquei novamente os fones de ouvido porque eu havia tirado para falar com o motorista. Fiquei ouvindo minhas músicas melodramáticas e olhando tudo o que estava a minha volta lá fora pela janela. Gosto de observar tudo e todos. Passava por alguns outros pontos de ônibus e via tudo quanto é tipo de gente. Passei todo o trajeto assim, observando tudo e ouvindo minhas músicas. Isso me dava a idéia de que eu estava fazendo parte de um filme. Finalmente o meu ponto para descer do ônibus chegou, dei sinal para o motorista parar e desci. Andei um pouco para chegar até o sinal pra poder atravessar a rua e fiquei esperando o sinal fechar. Sinal fechado, atravessei e comecei a andar com destino ao cursinho. Acho que já era umas 17:45 da tarde. Andei, andei, andei por aquelas ruas escuras do centro da cidade, via tanta gente passando por mim, tantas pessoas com histórias de vidas, tantos sonhos. Até que eu cheguei em uma rua que eu particularmente odeio passar por ela. Não sei, eu tenho um certo medo dessa rua e, nesse dia, eu realmente estava certa sobre esse medo. Quando eu estava chegado no final da rua, um cara me aborda e manda eu entregar a minha mochila a ele. Eu parei, o encarei e não sabia nem o que pensar. Mas segundos depois de não saber o que pensar eu me liguei que o cara estava querendo me assaltar e daí eu pensei: — FILHO DA PUTA ! 
Se ele levasse minha bolsa como eu voltaria pra casa ? Como eu iria estudar ? Afinal, todas as minhas apostilhas estavam lá no bolsa. Bem, eu não hesitei… Tive que entregar a bolsa, até porque minha vida é mais importante. Depois que eu vi o cara se afastando eu gritei: - Aquele cara roubou minha bolsa !! 
E foi daí que um jovem, devia ter uns 23 anos, com roupa social e muito bonito até, passou por mim e perguntou: - Que cara ?
— Aquele ali ! Aquele alto, moreno e careca, ele ta com a minha mochila de caveira.
Eu não acreditei na hora, mas esse cara correu até aquele homem com a tentativa de pegar a minha bolsa. Eu não sabia o que fazer, todo mundo a minha volta me olhava, eu não sabia se ficava ali parada ou se ia junto com aquele jovem tentar pegar minha bolsa. Bem, fui atrás daquele jovem e quando o encontrei ele me disse: - Ele sumiu no meio das pessoas. Você tem algum telefone aí pra ligar pra algum parente seu ? 
— Eu não tenho nada aqui ! Como eu vou voltar pra casa ? MEU DEUS e os meus livros ? Não acredito que isso aconteceu comigo !
— Calma. Fica calma. Vamos procurar uma delegacia pra fazer um B.O.
— Como você quer que eu fique calma se eu não tenho como voltar pra casa ? E se eu virar uma mendiga ? E se eu não conseguir voltar pra casa mais ? Meu Deus. 
Eu sei, era tudo muito estúpido o que estava passando na minha mente, mas eu não sabia o que pensar e eu estava desesperada.
Aquele jovem cujo eu nem fazia idéia do nome, só riu das coisas que eu falava. Ele só ficava me olhando, era até assustadora a forma que ele me olhava. Não sei, mas parecia que tinha uma certa fascinação no olhar dele.
— Eu te levo pra casa. 
— Hãm ?
— Eu te levo até em casa, não tem problema. Eu sei que você não tem como voltar pra casa porque tudo estava dentro daquele sua bolsa, então eu te levo.
— Mas eu nem te conheço.
— Prazer, sou o cara que você precisa para te levar em casa e que tentou ajudar a recuperar sua bolsa.
Eu ri. Não consegui segurar o riso. Meu Deus, ele era lindo. Aquela roupa social vestia ele tão bem e aqueles olhos dele eram tão encantador. Meu eu dentro de mim gritava para aceitar que ele me levasse até em casa, mas e se ele fosse outro ladrão, psicopata ou estuprador que queria se aproveitar de mim ?
— Não, obrigada. Muito obrigada por tentar me ajudar. Muito obrigada mesmo, mas acho melhor não.
— Por que ? Você quer virar uma mendiga abandonada que não tem como ir pra casa ? Nossa, acho que isso seria um desperdício com uma garota linda como você virando mendiga. -ele ria enquanto falava e, sinceramente, aquela risada dele era linda-
Meu Deus, ele disse que eu sou linda. Mas eu ainda sim, não queria aceitar que ele me levasse em casa.
— Por que você quer me ajudar ? Você não me conhece, não sabe nada sobre mim e nem eu te conheço. Como vou saber se você é um ladrão ou não ? Como vou saber e você não é um estuprador ? 
— Hum… Bem, quer tomar um café ? A gente pode conversar e eu te mostro que não sou nada do que você está pensando e daí você pode aceitar a minha oferta de levar segura até em casa.
— Não sei… Acho melhor não…
— Ah, vamos. Você não tem mais nada a perder mesmo. -ele pegou na minha mão e me puxou até a cafeteria-
Eu estava tremendo, não sei porque. Aquilo era meio que surreal pra mim. Eu não acreditava no que estava acontecendo. Eu fui assaltada naquela tarde e logo depois que sou assaltada um cara lindo, com roupa social tenta me ajudar e quer me levar até em casa.
— Ta bem, estamos tomando o café que você sugeriu. Já sei que o seu nome é Maurício e que você trabalha em uma multinacional. E sei também que TALVEZ você não seja um psicopata, estuprador ou um ladrão. Só que você não me disse o porquê de querer me ajudar e querer me levar até em casa. Você poderia só ter me oferecido o dinheiro da passagem do ônibus caso quisesse me ajudar, mas não, você quer me levar em casa, por quê isso ?
— É… Eu poderia só ter lhe oferecido o dinheiro da passagem, mas eu vi o seu rosto na hora que aquele homem te abordou e você me parecia tão vulnerável e com medo que eu não me permiti que você fosse embora sozinha.
— Ok. Mas você ainda não sabe nada sobre mim… Como você pode saber se eu sou uma pessoa confiável ou não ? 
— Então, me fale sobre você. Quero saber tudo. Ou melhor, tudo o que você quiser que eu saiba.
Eu olhei pra ele com uma cara de desconfiada, tomei um gole do café e sorri.
— Vamos lá, me fala pelo menos o seu nome.
— Letícia.
— Ah, Letícia… Letícia… Letícia..
Ele pronunciava meu nome de uma forma como se quisesse decorá-lo. Como se não quisesse esquecer.
— E o que você estava fazendo aqui no centro da cidade a essa hora Letícia ? Você sabe que andar por aqui só é meio que perigoso.
— Eu estava indo pro cursinho.
— Cursinho ?
— Pré-vestibular.
— Ah, pré-vestibular… O que você quer fazer na faculdade ?
— Arqueologia.
— Nossa, nunca conheci alguém que quisesse fazer arqueologia.
— É… 
— Ta bem, você está com poucas palavras. Você ainda não confia em mim o suficiente para poder conversar comigo, mas cá entre nós, se eu quisesse fazer algo a você, eu já teria feito. A gente já está conversando a quase 1 hora. Eu já poderia ter feito muita coisa a você durante 1 hora, mas a unica coisa que fiz foi lhe pagar um café e te oferecer carona até em casa.
— Ah, sabe como é… Minha mãe disse que não é pra eu falar com estranhos.
— Eu não sou mais estranho, você já sabe o meu nome, sabe que eu trabalho por aqui e sabe que eu quero te levar em casa.
— TA BEM ! Me convenceu. Se eu morrer hoje não tenho nada a perder mesmo.
— Eu sou uma boa pessoa, você vai ver, não vai se arrepender.
Fomos até o carro dele, e dentro havia um motorista. Quem é que tem um motorista ? Só pessoas ricas… Aquilo só podia ser um sonho, eu queria que alguém me beliscasse naquele instante.
— Primeiro as damas. 
Eu ri e levantei a saia de um vestido invisível como se eu estivesse fazendo reverência a ele. Depois ele riu também. 
Uma coisa que eu notei foi que o telefone dele não parava de vibrar e ele sempre ignorava as ligações. Não sei o porquê. Não hesitei e enquanto estávamos no carro, como tentativa de puxar assunto eu perguntei a ele.
— Por que você não atendeu a nenhuma ligação desde o momento em que entramos na cafeteria ? Eu notei que o seu telefone não parava de vibrar.
— Não queria interromper nossa conversa.
— Ah, só por isso ? Ah vai, tem que ter um porque. Vai me dizer que você estava fugindo da sua suposta namorada ?
— Não tenho namorada.
Engraçado que ele me olhou com uma cara surpresa. Como se ele acreditasse que nenhuma garota iria querer namorar ele.
— Desculpa.
— Se desculpa por quê ? Você não me fez nada.
— Desculpa por me desculpar então.
— Você me faz rir, é engraçada.
— Ótimo, sirvo para trabalhar em um circo. 
— E você, não tem namorado ? 
— Não. 
— Ah, vai, não tem ninguém ? Ninguém ? Ninguém ?
— Não. 
— Nossa. 
— O que foi ? 
— Não consigo acreditar que você não tem ninguém. 
— Por que ?
— Por que com certeza você deve ter muitos caras por aí querendo só uma chance pra ficar com você. Eu tenho certeza.
— Nada haver. Não é assim.
— Bem, então se não tem ninguém querendo ficar com você eu vou me candidatar a ser o primeiro da lista. -ele riu-
— E você, por que não tem ninguém ? Você é um cara bem sucedido, é bonito até e me parece ser uma boa pessoa. Você é o tipo de cara que toda garota sonha ter.
— Opa, você está junto com todas essas garotas que sonham em ter um cara assim ? Bem, se você estiver não precisa nem querer se candidatar, eu namoro com você na hora.
— Nossa, você é horrível nessas coisas, já sei porque não tem ninguém.
— Eu não vou mentir pra você, eu já fiquei com algumas meninas, sei que tem algumas que me querem, mas eu não gostei de nenhuma delas. Eu não consigo parar de pensar que elas podem estar comigo só por eu ter dinheiro, sabe ? Só por interesse. Eu quero alguém pra gostar de mim por eu ser eu e não pelo meu dinheiro. 
— Entendi. Bem, deve ser difícil encontrar uma menina vendo realmente dessa forma.
Eu não conseguia parar de observá-lo. A forma que ele mexia a boca quando falava, os olhos dele, a forma que ele estava sentado, a forma que mexia no celular… Era tudo tão perfeito nele. Mas eu não podia demonstrar que eu havia me interessado nele, e se ele achasse que eu só queria o dinheiro dele ? E se ele pensasse coisas ruins de mim ? Eu achava que era melhor tratá-lo de forma neutra… Sendo indiferente. Mas estava ficando cada vez mais difícil de me controlar.
— Pode parar o carro no próximo ponto, eu posso ir andando dali. Não precisa me levar até em casa.
— Não, eu insisto em te levar em casa. Quero ver você chegando segura lá.
— Não precisa, sério. Eu agradeço por você se importar em me trazer aqui, agradeço mesmo. Mas seria demais se você me levasse até em casa. O mundo precisa de mais pessoas como você.
O motorista estacionou o carro na calçada para não pará-lo na pista. Eu desci e ele desceu do carro junto comigo.
— Então eu vou a pé com você até em casa.
— Não precisa, sério. E não é porque eu não confio em você, não precisa mesmo.
Ele sorriu. Meu Deus que sorriso lindo.
— Tudo bem. Então, acho que a gente se despede aqui, não é !? 
— Sim.
— Bem, gostei de te conhecer Letícia. E gostei também de te provar que eu não sou nenhum psicopata e que não sou nenhum estuprador.
— Bobo. Obrigada por tudo. 
Acenei pra ele, dei as costas e comecei a andar em direção a minha. Era tudo muito irreal. Eu ainda não conseguia acreditar naquilo. Depois que o carro pegou a pista eu o vi colocando a cabeça para fora do carro e ele gritou: - Me adiciona no facebook, Maurício Candelar !
— Ta bom ! -eu gritei-
Depois daquele dia, nós conversávamos todos os dias. Não havia um dia sequer que a gente não se falava. Seja por internet, telefone ou pessoalmente. Em 3 meses nós viramos amigos. Depois de 5 meses começamos a ficar, pois a gente já se amava. E foi tudo tão incrível. Ele era a melhor pessoa do mundo comigo e eu fazia de tudo para deixá-lo feliz. Eu nunca havia amado alguém como o amei. E ele nunca havia encontrado uma garota como eu. É como se o destino quisesse que nos encontrássemos naquele dia. Eu sou grata pelo o destino ter feito, porque depois daquele dia eu fui a pessoa mais feliz do mundo.
— E foi assim que eu conheci seu pai filha, foi desse jeito que nos conhecemos.

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